sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

HOJE MAIS DO QUE ONTEM


Lembraste? Era diferente, cresceu e tornou-se muito mais forte. Um muito que todavia parece por vezes pouco, imenso mas nunca suficiente, um muito que não sacia, que quer sempre mais e mais, um sentimento alimentado dia após dia, ... hoje, o amor, a pressa de viver, a vontade de ser e fazer-te feliz, hoje mais do que ontem, menos que amanhã, sempre... para sempre.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

NUMA PALAVRA SOLIDÃO


Por trás das palavras que não digo mas penso
sinto um grito amordaçado
feito de emoções contraditórias
como uma gravata apertada 
cujo nó não consigo desapertar,
Balanço suspenso entre o certo e o errado
entre o dever e o querer, o desejo e a razão,
Em cada verso sou alegria
numa palavra solidão,
 solto a cor e o pesar
na pena do infortúnio,
sou o amante imperfeito
um amor que não conjuga
uma sede insaciável que não extravasa,
um coração à deriva
a quem amar não basta
 e sem amor não bate.


domingo, 19 de janeiro de 2020

OS 100 (SEM) LIKES

"Foi algo que experimentei, mas não é a essência do que vivo"
Marilyn Monroe, sobre a Fama

Quantos de nós não confundimos a fama com a realização pessoal, numa busca tantas vezes desmedida por um reconhecimento capaz de nos alimentar muito mais do que a carteira, o ego nunca saciado e sempre delicadamente fragilizado. Quem não aprecia uma pancadinha nas costas, palavras de apreço daqueles a quem damos mais atenção e valor do que aos que privam connosco todos os dias e a quem só dispensamos queixas e azedumes, mau feitio? A quem nunca seduziu ou se deixou inebriar por essa fragrância, por prioridades tão discutíveis como efémeras, por um objectivo ao qual o talento raramente está associado - ou não bastasse por vezes um palmo de cara jeitoso, um corpo com as medidas "certas" ou/e à falta destas uma boa cunha, um bom "padrinho" -, levando-nos a abdicar ou adiar de uma vida própria, reféns de uma exposição mediática com que nem sempre sabemos lidar, como um vício sem o qual não conseguimos viver. Na ânsia desse reconhecimento, encontramos-nos hoje num tempo estranho em que o carácter e a identidade própria se confundem com outros valores bem mais fúteis e nem sempre dignos. É assim a vida artística. Não importa quem és, o que pensas ou o que dizes, desde que apareças e quanto mais polémico mais os holofotes da fama estarão virados sobre ti, mesmo que te encontrem sozinho numa sala cheia de gente a aplaudir-te ou por trás de um computador coleccionando Likes e visualizações em vez de abraços, como quem se agarra a uma bilha de oxigénio para sobreviver. Presos a um trânsito cada vez mais caótico de redes sociais, assoberbados de "amigos" que nunca nos viram, que nunca te irão realmente conhecer, perdemos-nos do que importa, daqueles que contam e até de nós mesmos. Tudo por uma fábula,um pote de ouro que não existe no final do arco-íris, um Santo Graal imaginário, um sonho que por não concretizado vira pesadelo, pior do que os do Ljubomir. Temos muitos exemplos de uma má convivência com a fama, desses despertares nada pacíficos. Zé Maria, figura mais popular do primeiro Big Brother está hoje condenado ao esquecimento por uma sociedade de memória curta, sem proveito por todas as audiências que ajudou a granjear; António Calvário, na Casa do Artista, vive de saudades e memórias de quando os aplausos eram tantos como as mulheres que o perseguiam na rua na procura de um autógrafo; José Lopes, actor para muitos desconhecido, foi encontrado morto na rua, na miséria, sem casa, sem amigos. Todos os anos áureos assemelham-se agora a vidas de plástico, como balões que se esvaziam à medida que o ar se lhes escapa, como castelos de areia que se desvanecem nas primeiras ondas mais agrestes. Raquel Tavares deixou atónitos todos quantos a ouviram ao anunciar recentemente o final da sua carreira de fadista. "Chego a casa e sinto-me muito sozinha. Aos 35 anos, o que é que eu tenho? Tu tens um filho, eu não tenho. Tu tens uma mãe em casa, eu não tenho. Estamos rodeados de gente, a gritar, mas ninguém nos ouve.", desabafou a ex-fadista num destes dias, na televisão. A passar por um excelente momento profissional, ao contrário dos exemplos atrás citados, Raquel Tavares é a prova da difícil convivência entre a fama e a vida pessoal, de uma vida cheia de breves momentos de uma luz intensa mas artificial, de conhecidos e de vampiros, dessa gente que está connosco porque querem algo de nós. Quando somos famosos é difícil descortiná-los, aos amigos. Mas simultâneamente é também uma vida marcada por ausências, de privacidade, de laços duradouros, daqueles sentimentos em forma de afectos capazes de nos "encher" o coração e a alma. Raquel sabe que não irá ser fácil, que o bronzeado provocado pelas luzes da ribalta deixa marcas, mas também sabe que o brilho artificial de uma lâmpada, por maior que seja a sua voltagem nunca se assemelhará ao calor verdadeiro do Sol e sobretudo, sabe ainda que mesmo em 2020, continua a ser possível viver sem Likes.


É PRECISO TER CORAGEM PARA SER FELIZ

Hoje dei por mim a pensar nas semelhanças entre um blogue e a vida de cada um de nós. Não porque considere um blogue algo de importante, longe disso, mas não daremos por vezes mais importância à vida do que aquilo que ela merece? Eu sei que há gente que passa por inúmeras dificuldades e que até pode ver no que eu digo qualquer espécie de heresia, mas sinto que por vezes, a maior parte de nós, passa pela vida como um corredor de fundo numa pista de obstáculos. Será que a vida é mesmo assim tão complicada, tão cheia de "ses" e de "talvez" ou seremos nós que a complicamos? Nos últimos dias verifiquei que nem sempre é fácil fazermos ou dizermos aquilo que queremos, com medo das consequências. Podia ter pensado simplesmente: "que se lixem!", e pronto. Mas não. Para lá da minha janela, as pessoas correm mesmo sem terem para onde ir, gritam, perdem a paciência com futilidades, blasfemam da vida, do trabalho, dos governantes e até dos clubes rivais, como se o futebol, religião ou política fossem motivo para nos zangarmos e fazermos zangar os outros. Porque temos de andar sempre à procura de preocupações em vez de soluções? Poucas coisas na vida valem o preço de um sorriso de uma criança, do brilho no olhar daquele ou daquela que nos ama. Quase nada na vida se compara a um abraço apertado - e tão pouco nos abraçamos hoje em dia. É o barco que já saiu, o preço do pão que aumentou e o Benfica a ganhar novamente quase a acabar o jogo... paciência. É tão mais fácil falarmos mal dos outros, mandar alguém à merda, "vai-te f...", do que dizer "Amo-te". Ninguém é feliz ou está completo se não tiver o amor de alguém. Teremos vergonha de amar? Será que temos tanta tendência para nos escondermos e protegermos da vida, que perdemos o fascínio do risco? Regresso às palavras de Álvaro Pacheco, quando diz: "ah, é preciso ter coragem para ser feliz". Será que em algum tempo da nossa infância nos perdemos desse dom tão especial que é a capacidade de sermos felizes e de fazermos os outros felizes? Será que é a vida assim tão complicada ou fomos nós, que para não nos machucarmos, a complicámos? É por isso que nunca devemos criticar os outros por serem diferentes de nós, por errarem ou fazerem figuras tristes, na procura da felicidade. Quem nunca levou um "não" não sabe o gosto da vitória, mesmo que tenhamos de perder para alcançá-la. Um dia o filho procurará o aconchego do pai para lhe dizer "és o melhor pai do mundo e eu gosto muito de ti", alguém vai agradecer-lhe ter perdido aquele autocarro para o ajudar, alguém vai abrir os braços e responder-lhe "sim, porque sem ti não consigo ser feliz". Eu acredito. Por isso este é o blogue de um homem que gosta de futebol, viagens, cinema, sexo, música e palavras, não necessariamente por esta ordem. É também o blogue de alguém que gosta essencialmente de escrever, embora ache que não tenha nada de especialmente relevante a dizer, mas a maior parte dos políticos também não tem e ninguém os consegue calar. Este é o blogue de alguém que acredita no futuro, porque de outra forma não valeria a pena acordar amanhã nem depois. Acredito que todos os sacrifícios serão um dia recompensados e com um bocado de coragem terei então direito ao meu quinhão de felicidade. Um dia, alguém irá abrir os seus braços... e eu vou querer estar lá.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

AINDA ASSIM

Ainda que por vezes a vida seja uma merda
(e tu sabes que é)
e que o amor seja mesmo como dizem
(fodido),
ainda assim estarei contigo,
estarei sempre à tua espera.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

MEMÓRIAS DE UM TEMPO A PRETO E BRANCO REVESTIDO DE CORES

Talvez seja um pouco saudosista, talvez seja uma característica afinal tão nossa de gostarmos de reviver os cheiros e sabores d'outros tempos, especialmente da infância. António Mourão pedia que o tempo voltasse para trás, Cidália Moreira queria de volta os seus 20 anos na tristeza de um fado tão nosso como a saudade. Talvez por isso Portugal avance tão lentamente, agarrados que estamos a um passado que não regressa - como Dom Sebastião - e àquilo que poderíamos ter feito e não fizemos. Por isso a RTP Memória ainda é um dos canais mais vistos cá em casa, apesar de repetir sempre as mesmas coisas descurando uma tão vasta história e riqueza de programação, mas Conta-me Como Foi continua no topo das nossas preferências como os anos 80 no que toca à música. Foi aí, na memória da televisão, ao som de Francisco José - mais um que teve de ir para fora para ser reconhecido -, que revivi durante alguns instantes esses cheiros, os sons e os sabores do passado, das cores vivas de um tempo a preto e branco, da animação do Vasco Granja, da Heidi ao Marco,do Vickie à Pipi das Meias Altas, do Columbo ao McLoud,do Serpico ao Sandokan, da Gabriela do cravo e da canela, de todas essas recordações de um tempo em que nos sentávamos todos juntos à mesa e falávamos. É verdade, falávamos entre nós, dialogávamos sem discutir, com ouvidos e olhos de ouvir, sobre a vida e os sonhos, sobre as cousas do dia a dia, tratávamos de pormenores como se fossem de vital importância. Eram os tempos da personalidade individual e da intimidade, em que um beijo ruborizava a face de qualquer moçoila ou petiz mais envergonhado. Um tempo em que a televisão, telemóveis ou computadores não monopolizavam grande parte das nossas horas, um tempo em que brincávamos na rua, em que usava e abusava da máquina de escrever, dos domingos em família ao som do gira-discos,dos dias em que a rádio era a maior das nossas companhias, antes, muito antes dos prazeres virtuais, quando a carne tinha sabor a carne e até o sorriso era genuíno e fresco. Um tempo com tempo para tudo e em que tudo era mais simples. É verdade que já o António Gedeão dizia que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança, e que desde os primórdios dos tempos temos a capacidade de nos adaptarmos a condições e realidades tão diferentes, o tempo persiste em não parar e a velocidade do progresso muitas vezes leva-nos a que passem por nós despercebidos a singela simplicidade dos pormenores. Mas a verdade é que hoje como ontem não somos aquilo que vestimos, não somos uma moda que muda consoante a brisa dos tempos, mas um conjunto de factores, vivências e aprendizagens e o modo como as entranhamos e as transformamos em emoções, é todo um percurso desde essa mesma infância, saberes incutidos, cultura, tradições, amores e desamores, experiências. Não é saudade, é muito mais, uma viagem ao interior distante de cada um de nós, de alguém que não renega nem apaga o passado, as suas origens por mais humildes, de alguém que se recusa a ser um saco vazio deambulando ao sabor do vento, só p'ra pertencer a uma maioria e que nunca por nunca será apenas mais uma ovelha no rebanho.

domingo, 12 de janeiro de 2020

A POSSE E O DESEJO

 "Cada desejo enriqueceu-me mais do que a posse sempre falsa do objecto do meu desejo"
André Gide


 Raramente conseguimos aquilo que desejamos e é esse factor que, invariavelmente, - na maior parte dos casos nos conduz à depressão e à infelicidade. A posse é uma quimera, uma metáfora, já que poucas vezes nos tornamos realmente donos seja do que for, sendo que na maior parte delas nos tornamos nós reféns daquilo que julgamos possuir. Àquele que tudo tem faltará sempre algo mais, pois é essa a nossa natureza, - como diria Schopenhauer, de sermos insatisfeitos e insaciáveis. A posse é o momento, aquele breve e mágico instante, o fogo de artifício que logo findo vira passado, uma recordação apenas, mais um cromo no álbum que um dia deixaremos para trás, no pó das memórias. Ouvi alguém dizer há dias que tudo o que é bom demora muito tempo para acontecer. O que não deixa de fazer sentido, tão farta tem sido a minha vida de orgasmos precoces. O desejo, esse sim, é o barómetro da nossa felicidade, a prova de vida, a diferença entre o deve e o haver emocional. Ser feliz não é mais conseguirmos o que desejamos mas tão só a capacidade de sonhar. Sem isso somos inconstantes, amorfos, pouco mais que um saco vazio ao sabor do vento, sem destino nem vontade próprias. Paradoxalmente, se a vida é feita de momentos, trocaria de bom grado a eternidade dos sonhos por um momento que fosse, mesmo que breve e inconsequente, ao lado de quem nos traz assim, entre o certo e o incerto, perambulando entre a posse e o desejo